Irmãs Carmelitas 
SOBRE A ASSOCIAÇÃO IRMÃS CARMELITAS FREIS CARMELITAS ORDEM SECULAR


Escritos de Elisabete da Trindade

Como encontrar o Céu na Terra

Primeiro dia

Unidos com Cristo no Ser de Deus – A Trindade, eterno repouso da alma – Permanecei em mim – Encontro com Deus na solidão – O abismo da miséria do homem e da misericórdia de Deus.

Primeira oração

1. Pai, aqueles que me deste quero que, onde eu estou, também eles estejam comigo, para que vejam a glória que me deste, porque me amaste antes da criação do mundo.

Tal é a última vontade do Cristo, sua oração suprema antes de retornar ao Pai. Quer que onde Ele está, estejamos também nós, não só durante a eternidade, mas desde esta vida, que é a eternidade começada e sempre em crescimento. Importa, pois, saber onde devemos viver com ele, para realizar o ideal divino. O lugar onde se oculta o Filho de Deus é o seio do Pai, que é a Essência divina, invisível a qualquer olhar mortal, inacessível a qualquer inteligência humana, o que fazia dizer Isaías: “Vós sois verdadeiramente um Deus escondido”; E, contudo, a sua vontade que estejamos fixos nele, que moremos onde Ele mora, na unidade do amor; que sejamos, por assim dizer, como que a sombra de si próprio.

2. ‘Pelo batismo’, afirma São Paulo, ‘fomos enxertados em Jesus Cristo’. E ainda: ‘E com ele nos ressuscitou e nos fez assentar nos céus, em Cristo Jesus, para mostrar aos séculos vindouros as riquezas da sua graça. E mais adiante: ‘Não sois hóspedes nem estrangeiros, mas concidadãos dos santos e membros da família de Deus.’ A Trindade, eis a nossa morada, o nosso lar, a casa paterna, donde nunca devemos sair. Assim o manifestou um dia o Divino Mestre: “O escravo não permanece sempre na casa, mas o Filho aí permanece para sempre. ”

Segunda oração

3. “Permanecei em mim”

É o próprio verbo de Deus que dá esta ordem, e que exprime esta vontade. “Permanecei em mim”, não só momentaneamente, durante algumas horas passageiras, mas permanecei de um modo estável, habitualmente. “Permanecei em mim”: orai em mim; adorai em mim; amai em mim, sofrei em mim, trabalhai, agi em mim. Permanecei em mim quando vos apresentardes a qualquer pessoa ou fizerdes qualquer coisa. Penetrai cada vez mais intimamente nesta profundidade. Esta é, então, verdadeiramente, ‘a solidão a que Deus atrai a alma para lhe falar”, como cantava o Profeta.

4. Mas para escutar esta palavra tão misteriosa não se pode ficar, por assim dizer, à superfície. É necessário penetrar sempre mais no Ser divino mediante recolhimento interior. “Prossigo a minha caminhada, exclamava São Paulo. Também nós devemos descer todos os dias por esta senda do Abismo que é Deus. Deixemo-nos escorregar por esta vertente, numa confiança plena de amor. “Um abismo clama por outro abismo”. É aí, no mais profundo, que se operará o choque divino, que o abismo do nosso nada, da nossa miséria, se encontrará frente a frente com o Abismo da misericórdia, da imensidade, do tudo de Deus. É aí que, ao perdermos o nosso próprio rastro, seremos, transformados em amor…Bem-aventurados os que morrem no Senhor.

Segundo dia

O Reino de Deus em nós – O centro da alma – Transformados por amor – Imperfeições e exigências divinas.

Primeira oração

5. “O Reino de Deus está dentro de vós

Há pouco, o Senhor nos convidava a permanecer nele, a viver pela alma na sua herança de glória. Agora nos revela que não precisamos sair de nós mesmos para o encontrar: “O Reino de Deus está dentro de nós”. São João da Cruz diz que: é na substância da alma, onde nem o demônio e nem o mundo podem chegar, que Deus se dá em nós. Então todos os seus movimentos se tornam divinos e, sendo embora de Deus, são igualmente dela, porque Nosso Senhor os produz nela e com ela.

6. O mesmo santo afirma ainda que Deus é o centro da alma. Quando ela houver chegado a ele, segundo toda capacidade do seu ser, e a força de sua operação e inclinação, terá atingido seu último e mais profundo centro de Deus; isto se realizará quando a alma com todas as suas forças compreender, amar e gozar plenamente a Deus. Não havendo chegado a tanto, como sucede nesta vida moral em que a alma não pode unir-se a Deus com a totalidade de suas forças, está se dúvida no seu centro que é o mesmo Deus, mediante a graça e comunicação que dele recebe; contudo tem ainda força e movimento para ir mais avante, e não está satisfeita, porque, embora se ache no seu centro, não chegou ainda a maior profundidade, e pode penetrar mais adentro na profundeza de Deus. Como é o amor que une a alma a Deus, quanto mais intenso é este amor, tanto mais profundamente penetra ela em Deus e nele se concentra. Se ela possui um único grau de amor, já está no seu centro, mas quando este amor tiver atingido a sua perfeição, a alma terá penetrado no seu ‘centro mais profundo’. É aí que ela será transformada a ponto de tornar-se muito semelhante a Deus. A esta alma, que vive ‘no interior de si mesma’, podem aplicar-se as palavras do Padre Lacordaire a Santa Madalena: “não pergunteis mais pelo Mestre a ninguém na terra ou no céu, porque ele é vossa alma, e vossa alma é ele.

Segunda oração

7. “Desce depressa, pois hoje devo ficar em tua casa.”

O Divino Mestre repete constantemente à nossa alma esta palavra que Ele disse um dia a Zaqueu. “Desce depressa”. Mas qual é este descer que Ele exige de nós senão uma imersão mais profunda em nosso abismo interior? Este ato não é uma “separação superficial das coisas externas, mas é uma ’solidão do espírito’, um desprendimento de tudo que não é Deus.

8. Enquanto nossa vontade tem caprichos estranhos à união com Deus, fantasias contraditórias, nós permaneceremos no estado de infância e não caminhamos a passo de gigante no amo; porque o fogo ainda não consumiu toda a escória. O outro não está puro. Estamos ainda em busca de nós mesmos; Deus não destruiu ainda toda a nossa hostilidade para com Ele. Mas quando a fervura da caldeira purificou totalmente todo o amor vicioso, toda dor viciosa, todo o vicioso temor, então o amor torna-se perfeito, e o anel de ouro de nossa aliança mais largo que o céu e a terra. Eis aí a adega secreta onde o amor introduz seus eleitos. Esse amor nos arrasta por atalhos e veredas que somente ele conhece; e nos arrasta sem apelo, pois já não se pode mais retroceder.

Terceiro dia

Amor eterno de Deus ao homem –Vontade divina e condita humana – Deus prisioneiro da alma por amor – Morte espiritual e plenitude divina – Transformados em Cristo.

Primeira oração

9. “Se alguém me ama, guardará minha Palavra e meu Pai o amará e a ele viremos, e faremos nele a nossa morada”.

Eis o Divino Mestre que nos manifesta mais uma vez o seu desejo de habitar em nós. “Se alguém me ama”! O amor, eis o que atrai, o que arrasta Deus até a sua criatura. Não um amor feito de sensibilidade, mas este “amor forte como a morte…e que águas imensas jamais poderão extinguir.”

10. Porque amo meu Pai, faço sempre o que lhe agrada. Assim falava o Divino Mestre e toda alma que quiser viver em intimidade com ele deve também viver esta máxima. A vontade de Deus deve ser o seu alimento, o seu pão de cada dia e deve deixar-se imolar por todos os desígnios do Pai a exemplo do seu Cristo adorado. Cada incidente, cada acontecimento, cada sofrimento e cada alegria, são um sacramento dado por Deus. Pois já não faz distinção entre estas coisas, mas transcende-as e ultrapassa-as, a fim de repousar, acima de tudo, em seu Divino Mestre. “Então o exalta bem alto na elevação de seu coração, sim, mais alto que os seus dons ou as suas consolações, mais acima das doçuras que procedem dele”. A propriedade do amor em de nunca buscar a si mesmo, de nada reservar para si, mas de tudo dar àquele que ama. Feliz a alma que ama verdadeiramente; o Senhor torna-se cativo de seu amor!

Segunda oração

11. “Vós estais mortos e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus.”

Eis como São Paulo nos vem dar uma luz para nos esclarecer sobre a senda do abismo. “Vós estais mortos”. O que significa isto, senão que a alma desejosa de viver em intimidade com Deus,” na fortaleza inexpugnável do santo recolhimento, deve estar separada, despojada, alheada de todas as coisas? Esta alma encontra em si mesma uma vertente simples de amor, que leva a Deus, seja o que for quem façam as criaturas. Ele permanece invencível frente às instabilidades das coisas transitórias, porque vai além de tudo, visando somente Deus.

12. “Quotidie morior”. Morro cada dia, diminuo, renuncio-me cada dia mais, a mim mesma, para que Cristo cresça e seja exaltado em mim. Permaneço humilde no fundo de minha pobreza. “Observo o meu nada, minha miséria, minha impotência. Reconheço-me incapaz de progresso e perseverança. Vejo a multidão de minhas negligências e meus defeitos; contemplo-me em toda a minha indigência. Prostro-me diante de minha miséria e, reconhecendo minha absoluta pobreza, apresento-a diante da misericórdia de meu Divino Mestre. “Quotidie morior”. Ponho a felicidade de minha alma (quanto à vontade e não a sensibilidade) em tudo quanto pode imolar-me, destruir-me, rebaixar-me, porque quero dar lugar ao meu Mestre. “Eu vivo, mas já não sou eu que vivo, pois é Cristo que vive em mim. Não desejo mais viver de minha própria vida, mas ser transformada em Jesus Cristo, para que a minha vida seja mais divina que humana e que o Pai, ao contemplar-me, possa reconhecer em mim a imagem do “Filho muito amado, no qual ele pôs todas as suas complacências”.

Quarto dia

O amor transformante de Deus – O eterno silêncio das almas – Imersos no fogo do amor – Vida trinitária da alma – Só amar é meu exercício

Primeira oração

13. “Deus ignis consumens”.

Nosso Deus, escreve São Paulo, é fogo devorador, isto é, um fogo de amor que consome, que “transforma em si tudo quanto o toca”. As delícias do abraço divino se renovam no fundo de nosso ser mediante uma atividade que nunca se interrompe. O abraço do amor é um estado de mútua e eterna complacência. É uma renovação que acontece a cada momento do vínculo do amor. Algumas almas “escolheram este lugar de repouso para nele descansar eternamente.Este é o silêncio onde elas, de certo modo, se perderam”. “Libertadas de sua prisão, navegam no Oceano da Divindade sem que ninguém as estorve ou impeça.

14. Quão doce e suave é para estas almas a morte mística da qual São Paulo nos falava ontem! Elas pensam muito menos no trabalho de destruição e de despojamento que ainda lhes resta fazer, do que em se lançar na Fornalha de amor que nelas arde. Esse amor é o Espírito Santo. É o mesmo amor que une o Pai co o Verbo no seio da Santíssima Trindade. Essas almas “penetram em Deus pela fé viva, e cheias de simplicidade, de paz. Ele as conduz para além das coisas criadas e dos gostos sensíveis até a ‘treva sagrada’ ficando transformadas em imagem de Deus”. Segundo a expressão de São João, elas vivem “em sociedade”, co as três pessoas adoráveis, em comunhão de vida. Nisto consiste a vida contemplativa. É uma contemplação que conduz à posse. Ora, nesta posse simples é a vida eterna intimamente saboreada. É aí que, acima da razão, nos espera a tranqüilidade profunda da divina imutabilidade.”

Segunda oração

15. “Eu vim para trazer fogo à terra, e como desejaria que já estivesse aceso.”.

É próprio Mestre que nos vem exprimir o seu desejo de ver arder o fogo do amor. De fato, “todas as nossas obras, todos os nossos trabalhos não são nada diante de Deus. Não podemos dar-lhe nada, nem satisfazer o seu único desejo, que é o de elevar a dignidade da nossa alma”. Nada lhe agrada tanto quanto vê-la crescer. Ora, nada pode elevá-la tanto quanto se tornar de alguma forma igual a Deus.Eis por que ele exige dela o tributo do seu amor, por ser próprio do amor igualar, na medida do possível, aquele que ama ao amado. A alma que ama desta forma se mostra igual a Jesus Cristo, porque a afeição recíproca torna tudo comum entre eles. “Eu vos chamo de amigo, porque tudo o que ouvi do Pai eu vos dei a conhecer”.

16. Porém, para chegar a este amor, é necessário que a alma, antes, “se entregue totalmente”. Sua vontade deve, a pouco e pouco, perder-se na de Deus, de modo que suas “inclinações” e “faculdades” só se movam dentro desse amor e para esse amor. Tudo faço por amor e tudo sofro por amor – tal é o sentido das palavras de Davi; Guardarei em vós a minha força”. Então o amor a enche de tal forma, absorve-a e protege-a tão bem, que ela encontra por toda parte segredo de como crescer no amor. Mesmo em suas relações com o mundo, nos cuidados da vida, ela tem o direito de dizer: “a minha única ocupação é amar”.

Quinto dia

A chegada sempre nova de Deus – O Deus da graça e o Deus da eternidade – A eucaristia, testemunho do amor – Cristo vivendo nas almas – A unidade pelo amor.

Primeira oração

17. “Eis que estou à porta e bato: se alguém ouvir minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele e ele comigo.

Ditosos os ouvidos da alma que se encontra suficientemente vigilante e recolhida para ouvir a voa do Verbo de Deus. Ditosos também os olhos desta alma que, à luz da fé viva e profunda, pode assistir à chegada do Mestre em seu santuário interior. Mas, em que consiste esta chegada? “É uma geração incessante, uma ilustração sem defeito. O Cristo vem co seus tesouros; mas tal é o mistério da rapidez divina, que ele chega continuamente, sempre pela primeira vez, como se jamais tivesse vindo; porque sua chegada independe do tempo, consiste num eterno ‘agora’. E um eterno desejo renova eternamente as alegrias da sua chegada. As delícias que ele traz são infinitas, pois elas são Ele mesmo. A capacidade da alma, dilatada pela chegada do Mestre, parece sair de si mesma para ultrapassar os muros e chegar à imensidão daquele que chega. E então acontece o seguinte fenômeno: É Deus que, no íntimo de nós, recebe Deus vindo de nós. E Deus contempla Deus! Deus em quem consiste a beatitude.

Segunda oração

18. “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue, permanece em mim e eu nele.”

O primeiro sinal do amor é que Jesus nos deu sua carne para comer e seu sangue para beber. É próprio do amor dar sempre e sempre receber. Ora, o amor de Cristo é generoso. Dá tudo quanto e tudo quanto é. Em troca se apossa de tudo quanto temos e tudo quanto somos. Ele pede mais do que nós mesmos seríamos capazes de dar. Jesus tem uma fome imensa que nos quer devorar totalmente. Ele penetra até a medula de nossos ossos. E quanto mais amorosamente lho permitimos, mais plenamente dele saboreamos. (…)

Quando recebemos Cristo com atitude de íntima abnegação, seu sangue cheio de calor e de glória corre em nossas veias, o fogo invade o nosso íntimo e a semelhança de suas virtudes chega a nós. Então ele vive em nós e nós vivemos nele. Ele nos dá sua alma com a plenitude da graça pela qual a alma persevera na caridade e no amor do Pai! O amor atrai a si seu objeto próprio. Nós atraímos Jesus a nós mesmos. Jesus nos arrasta para si. É então quando arrebatados mais além de nosso ser na interioridade do amor, caminhamos com o olhar posto em Deus a seu encontro, ao encontro do seu Espírito que é seu amor. E este amor nos abrasa, nos consome, nos atrai para a unidade onde nos espera a bem-aventurança. Jesus Cristo pensava nisto quando dizia: “Desejei ardentemente comer esta Páscoa convosco”.

Sexto dia

Fé sobrenatural e possessão divina – O Deus oculto de nossa fé – Cremos no Amor – A pureza da intenção – Sua força vital e transformante – Contato da alma com Deus.

Primeira oração

19. “Para aproximar-se de Deus é preciso crer”.

É São Paulo quem assim fala. E diz também: “A fé é a posse antecipada do que se espera, um meio de demonstrar as realidades que não se veem. Quer dizer que “a fé torna os bens futuros tão certos e presentes que, por ela, eles tomam existência em nossa alma e nela subsistem antes mesmo que possamos deles gozar. São João da Cruz diz que ela serve para irmos a Deus e, ainda, que “é a posse em estado obscuro”. Só ela pode far-nos-á verdadeiras luzes sobre Aquele que amamos, e nossa alma deve “escolhê-la como meio para chegar à união divina”. “É ela que derrama, com abundância, em todos nós, os bens espirituais. Jesus Cristo, falando à samaritana, designava a fé, ao prometer a todos os que nele cressem ‘uma fonte de água viva que jorraria até a vida eterna. “Assim, pois, a fé nos dá Deus desde esta vida, ainda que velado, mas é Deus mesmo. “Quando chegar o que é perfeito (isto é, a visão clara), o que é imperfeito (em outros termos, o conhecimento pela fé) receberá toda a sua perfeição.

20. Temos reconhecido o amor de Deus por nós e nele cremos”. Aí está o grande ato de nossa fé, o meio de retribuir a Deus amor com amor, é o ‘segredo escondido’ no coração do Pai, de que fala São Paulo, onde conseguiremos afinal penetrar e toda a nossa alma exulta. Quando ela sabe crer no “grande amor” que a envolve, pode-se dizer dela o que se dizia de Moisés: “Era inabalável na fé como se houvera visto o Invisível. Não se detém mais nos gostos, nos sentimentos; pouco lhe importa que lhe mande gozo ou sofrimento: crê em seu amor. Mais a alma é provada, mais aumenta a sua fé, porque transpõe, por assim dizer, todos os obstáculos para ir repousar no seio do amor infinito, cujas obras só podem ser de amor. Por isso a voz do Mestre pode segredar a esta alma, assim desperta na fé, aquela palavra íntima que um dia ele dirigiu a Maria Madalena: “Tua fé te salvou; vai em paz.

Segunda oração

21. “Se teu olho for simples, todo o teu corpo será iluminado”.

Qual é o olho simples de que nos fala o Mestre senão aquela simplicidade de intenção que une todas as forças dispersas da alma e une a Deus o próprio espírito? É a simplicidade que presta a Deus honra e louvor. É ela que lhe apresenta e lhe oferece as virtudes. Depois, penetrando em si mesma e ultrapassando seu ser, penetrando e ultrapassando o ser das criaturas, ela encontra Deus em seu íntimo. Ela é o princípio e o fim das virtudes, seu esplendor e sua glória. Eu chamo intenção simples aquela que só visa a Deus, atribuindo tudo a ele. É ela que põe o homem em presença de Deus; que lhe dá luz e coragem; é ela que o torna vazio e livre, agora e no dia do julgamento e o liberta de todo o temor. Ela é o declive interior e o fundamento de toda vida espiritual. Ela esmaga aos pés a natureza viciada, dá a paz, impõe silêncio aos ruídos vãos que se fazem em nós. É ela que faz crescer em nós em cada momento nossa semelhança com Deus. E depois, além dos intermediários, é ela que também nos transportará à profundeza onde Deus habita e nos dará o repouso do abismo. A herança que a eternidade nos preparou é a simplicidade que no-la dará. Toda a vida espiritual e toda virtude interior consistem na semelhança divina, na simplicidade. E seu repouso supremo dá-se na altura e também na simplicidade. Segundo a medida de seu amor, cada espírito tem uma procura de Deus mais ou menos profunda em seu próprio íntimo. A alma simples, elevando-se pela virtude de seu olhar interior, entra em si mesma e contempla no próprio abismo o santuário onde se realiza o toque da Santíssima Trindade. Assim, ela penetrou em sua profundeza “até o alicerce que é a porta da vida eterna”.

Sétimo dia

Nosso exemplar divino – Novos horizontes da alma – Portadores da imagem de Deus – Quem é mais santo? – Irradiação divina sobre a alma – união total com Deus, nossa imagem.

Primeira oração

22. “Deus nos escolheu nele, antes da criação do mundo, para sermos santos e imaculados em sua presença, no amor.”

“A Santíssima Trindade nos criou à sua imagem, de acordo com o exemplar eterno que ela possuía de nós em seu seio, antes da criação do mundo, “naquele princípio sem princípio” de que fala Bossuet com base em São João: “In princípio erat Verbum”, “no princípio existia o Verbo”. E pode-se acrescentar: no começo era o nada, porque Deus em sua eterna solidão já nos trazia em seu pensamento. (…)

23. “Nossa essência criada exige o reencontro com seu princípio. O Verbo, esplendor do Pai, é o tipo eterno no qual são desenhadas as criaturas no dia de sua criação. Eis porque Deus quer que, livre de nós mesmos, elevemos os braços para nosso exemplar e que o possuamos, elevando-nos sobre todas as coisas em direção a nosso modelo.(…)Portanto, é graças ao amor e pelo amor, como diz o Apóstolo, que podemos ser imaculados e santos na presença de Deus e canta com Davi: “Serei sem mancha e me defenderei da profunda iniquidade que está em mim.

Segunda oração

24. “Sede santos porque eu sou santo”.

É o Senhor quem fala assim. “Qualquer que seja o nosso modo de vida ou hábito que levamos, cada um de nós deve ser o santo de Deus. Quem é, pois, o mais santo? É aquele que mais ama, aquele que mais olha pra Deus e aquele que atende mais plenamente às exigências do seu olhar. Como satisfazer as exigências desse olhar de Deus? Permanecendo simples e amorosamente voltado para ele, a fim de que possa espelhar sua própria imagem, com o sol se espelha através de um puro cristal.

25. A mais alta perfeição nesta vida, diz um piedoso autor (Santo Alberto Magno), consiste em ficar de tal modo unido a Deus, que a alma com todas as suas faculdades e suas potências fique recolhida em Deus; que suas afeições unidas nas alegrias do amor não encontrem descanso senão na posse do Criador. (…) E como a glória dos bem-aventurados não é outra coisa senão a perfeita posse desse estado, fica claro que a posse começada destes bens constitui a perfeição nesta vida. Para realizar este ideal é preciso manter-se recolhido dentro de si mesmo, manter-se em silêncio na presença de Deus, enquanto a alma de abisma, se dilata, se inflama e se funde nele com uma plenitude sem limites.”

Oitavo dia

O mistério de nossa predestinação – Participes da natureza divina – Imitando a Cristo – A vontade do Pai – Crucificados por amor.

Primeira oração

26. Os que, de antemão, ele conheceu, esses também predestinou a serem conformes à imagem do seu Filho…E os que predestinou, também os chamou: e os que chamou, também os justificou e os que justificou, também os glorificou. Depois disto, que nos resta a dizer? Se Deus está conosco, quem estará contra nós? Quem me separará do amor de Cristo?…

27. Sim, nós lhe pertencemos pelo Batismo; é o que São Paulo quer significar com estas palavras: “Ele os chamou”. Sim, fomos chamados a receber o selo da Santíssima Trindade, ao mesmo tempo em que nos tornamos, segundo diz São Pedro: “participantes da natureza divina; recebemos um “inicio de seu ser…” Em seguida, “nos justificou” pelos sacramentos, por toques diretos, no recolhimento profundo de nossa alma; “justificados que fomos também pela fé e segundo a medida da nossa fé na redenção que Jesus Cristo adquiriu para nós. Enfim, ele quer glorificar-nos. Por isso, São Paulo diz: “tornou-nos capazes de participar da herança dos santos na luz”. Mas só seremos glorificados à medida que tivermos sido conformes à imagem de seu divino Filho. Contemplemos, pois, esta imagem adorável, permaneçamos continuamente sob sua irradiação para que ela se imprima em nós. Depois façamos todas as coisas com as atitudes de espírito com as quais faria o nosso Mestre divino; realizaremos, então, a grande vontade pela qual Deus decidiu, “em si mesmo”, “restaurar todas as coisas em Cristo”.

Segunda oração

28. Tudo eu considero perda, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor. Por ele, eu perdi tudo e tudo tenho como esterco, para ganhar a Cristo; para conhecê-lo, conhecer o poder da sua ressurreição e a participação nos seus sofrimentos, conformando-me com ele na sua morte. Não que eu já tenha alcançado essa meta ou que já esteja perfeito, mas vou prosseguindo para ver se alcanço, pois que também fui alcançado por Cristo Jesus. Uma coisa faço: esquecendo-me do que fica para trás e avançando para o que está adiante, prossigo para o alvo, para o prêmio da vocação do alto, que vem de Deus em Cristo Jesus(Filipenses 3,8.10.12-14) Isto é, eu não quero mais nada a não ser a identificação com ele. Para mim viver é Cristo!…

A alma ardente de São Paulo está toda nestas linhas. Durante este retiro, cuja finalidade é a de tornar-nos mais conformes a nosso Mestre adorável; mais ainda, é fundir-nos de tal maneira nele que possamos dizer: “Eu vivo, mas já não sou eu que vivo, pois é Cristo que vive em mim. Minha vida presente na carne, eu a vivo pela fé no Filho de Deus, que amou e se entregou a si mesmo por mim. (Gálatas 2, 20) Estudemos este Modelo divino. Diz-nos o Apóstolo que seu conhecimento “é tão transcendente!”.

29. E que disse ele ao entra no mundo? “Tu não quiseste sacrifício e oferenda. Tu, porém, formaste-me um corpo…eu vim, ó Deus, para fazer sua vontade. Durante os seus trinta e três anos de vida terrena, esta vontade lhe foi de tal modo o pão de cotidiano que, no instante de entregar sua alma nas mãos do Pai, pode dizer: Tudo esta consumado! Sim, os vossos desejos foram todos cumpridos e eis porque “eu Vos glorifiquei na terra”. Com efeito, Jesus Cristo, falando a seus apóstolos a respeito deste alimento que eles não conheciam. Dizia-lhes: “Meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou” (João 4,34).Ele também podia afirmar: “Jamais estou sozinho”. Aquele que me enviou está sempre comigo, porque faço sempre aquilo que lhe agrada”. (João 8, 29)

30. Comamos com amor este pão da vontade de Deus. Se, às vezes, os seus desejos são mais cruciantes, podemos, sem dúvida, dizer com o nosso adorável Mestre: “Pai, se é possível, que se afaste de mim esse cálice”. Mas logo acrescentaremos: “Não seja como eu quero, mas como vós quereis”. (Mateus 26, 39)Então subiremos também nós com serenidade e fortaleza em companhia do divino Crucificado o nosso Calvário, cantando no íntimo da alma, e elevando ao Pai um hino de ação de graças, pois os que percorrem este caminho doloroso são “aqueles que ele conheceu e predestinou para serem conformes à imagem de seu divino Filho”(Romanos 8, 29), o Crucificado por amor!

Nono dia

Filhos de Deus por adoção – Nosso modelo de santidade – Adoradores do Pai em espírito e em verdade- ingratidão e malícia do pecado – O pecado como instrumento de salvação e humildade.

Primeira oração

31. “Deus nos predestinou para sermos filhos adotivos por Jesus cristo, conforme o beneplácito da sua vontade, para louvor e glória da sua graça,com a qual ele nos agraciou no Amado,na qual temos a redenção pelo seu sangue, a remissão dos pecados, segundo a riqueza da sua graça, que ele derramou profusamente sobre nós, infundindo-nos toda sabedoria e prudência.

A alma que se tornou realmente filha de Deus, segundo a palavra do Apóstolo, é movida pelo próprio Espírito Santo.(…)

32.Eis a medida de santidade dos filhos de Deus: “ser santo como Deus é santo, ser santo da própria santidade de Deus, e isto vivendo intimamente com ele, no fundo do abismo sem fundo, ‘dentro de nosso ser’.

33. Cristo, um dia, disse á samaritana que o “Pai estava procurando adoradores em espírito e em verdade. Para alegrar o seu coração, sejamos essas grandes adoradoras. Adoremo-lo ‘em espírito’, isto é, tenhamos o coração e o pensamento fixos nele,com o espírito cheio de seu conhecimento pela luz da fé. Adoremo-lo ‘em verdade’,isto é, por meio das nossas obras,pois nossa veracidade se manifesta através de nossa conduta. Adorá-lo ‘em verdade’ é fazer sempre o que agrada o Pai.

Segunda oração

Deus, que é rico em misericórdia,pelo grande amor com que nos amou,quando estávamos mortos em nossos pecados, nos vivificou junto com Cristo. Todos pecaram e todos estão privados da glória de Deus; e são justificados gratuitamente por sua graça, em virtude da redenção realizada em Cristo Jesus, que Deus estabeleceu como propiciação dos pecados,mostrando que ele é justo e justifica quem tem fé nele.

“O pecado é um mal tão horrível que, para procurar um bem, por pequeno que seja, ou para evitar um mal qualquer nenhum pecado deve ser cometido.(…)

36(…)

37.Quem possui um fundo de humildade não precisa de muitas palavras para instruir-se.Deus lhe revela mais coisas do que outros poderiam lhe ensinar. Os discípulos de Deus estão nesta posição.

Décimo dia

Se conhecesses o dom de Deus – A Virgem fiel – A Virgem da vida interior – Atitudes espirituais de um louvor e de glória – o nome novo do vencedor.

Primeira oração

“Se conhecesses o dom de Deus”, disse Jesus à Samaritana. Mas qual é este dom de Deus,senão ele mesmo? “E diz-nos o discípulo amado, veio aos seus e os seus não o receberam.

39. “Se conhecesses o dom de Deus!” Houve uma criatura que conheceu este dom de Deus…Uma criatura cuja vida foi tão simples,tão absorta em Deus,que quase nada se pode dizer a respeito dela.

“Virgo Fidelis,Virgem Fiel,é aquela que “guardava todas as coisas no coração”. Conservava-se tão pequena e recolhida diante de Deus, no segredo do Templo, que atraiu sobre si as complacências da Santíssima Trindade: “Porque olhou para a humildade de sua serva, doravante as gerações todas me proclamarão bem-aventurada!… O Pai, ao contemplar esta criatura tão bela e tão indiferente à própria beleza, quis que ela fosse, no tempo, a Mãe daquele de quem ele é o Pai na eternidade. Veio, então, sobre ela o Espírito de Amor, que preside a todas as operações divinas, e a Virgem disse o seu Fiat: “Eis aqui a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a vossa palavra, e o maior dos mistérios se realizou. Pela descida do Verbo nela, Maria tornou-se, para sempre, a presa de Deus.

40. Parece-me que a atitude da Virgem, durante os meses que se passaram entre a Anunciação e o natal, é o modelo das almas interiores, desses seres por Deus escolhidos para viver ‘no interior’, no fundo do abismo sem fundo. Com que paz e recolhimento Maria se submetia e se entregava a todas as ocupações! Como as ações mais banais eram divinizadas nela! Porque, em tudo, a Virgem permanecia a adoradora do dom de Deus em todos os seus atos. Esta atitude não a impedia de doar-se exteriormente, quando a caridade o exigia. O Evangelho narra que “Maria percorreu apressadamente as montanhas da Judéia, para dirigir-se à casa da sua prima Isabel”. Jamais a visão inefável, que ela contemplava no seu interior, diminuiu a sua caridade exterior, porque conforme afirma um autor piedoso, “se a contemplação conduz ao louvor e à eternidade de seu Senhor, ela tem em si a unidade e não a perderá jamais”. Se lhe chega uma ordem do céu, volta-se para os homens, compadece-se de todas as suas necessidades, inclina-se sobre todas as suas misérias. Convém que ela chore e fecunde! A contemplação ilumina como o fogo; como ele, queima, absorve e consome, elevando para o céu tudo quanto destruiu. E uma vez cumprida a sua missão na terra, levanta-se e empreende novamente o caminho para a altura, ardendo em seu próprio fogo.

Segunda oração

41. "Nele, predestinados pela decisão daquele que tudo opera segundo o conselho de sua vontade, fomos feitos sua herança,para sermos o louvor de sua glória"

É São Paulo que assim fala. São Paulo instruído pelo próprio Deus. Como realizar este grande sonho do coração de nosso Deus, este seu desejo imutável sobre de nossas almas, numa palavra, como corresponder à nossa vocação e nos tornar perfeitos louvores de glória da Santíssima Trindade?

42.No céu, cada alma é um louvor de glória ao Pai, ao verbo e ao Espírito Santo, pois cada alma está fixada no amor puro, ‘não vivendo mais da sua própria vida, mas da vida de Deus…Em outras palavras: “seu entendimento é o entendimento de Deus, sua vontade a vontade de divina, seu amor o mesmo amor de Deus. O Espírito de amor e de fortaleza é quem transforma realmente a alma, pois tendo sido enviado para suprir nela tudo quanto lhe falta, como diz também São Paulo, ele opera na alma esta gloriosa transformação”. São João da Cruz afirma que falta pouco para que a alma, assim entregue ao amor, não se eleve nesta vida pela virtude do Espírito Santo, ao grau de amor que estamos falando. Eis o que eu chamo um perfeito louvor de glória”.

43. Um louvor de glória: é uma alma que permanece em Deus, que o ama com um amor puro e desinteressado, sem buscar-se a si mesmo na doçura desse amor;que o ama acima de todos os seus dons, e amaria ainda que nada tivesse dele recebido,e que deseja o bem ao Objeto assim amado. Ora, como desejar e querer, efetivamente algum bem a Deus, senão pelo cumprimento exato de sua vontade, uma vez que esta vontade encaminha todas as coisas para a sua maior glória? Portanto, esta alma deve se entregar a ele plena e inteiramente, até não conseguir mais querer outra coisa senão o que Deus quer.

Um louvor de glória: é uma alma de silêncio, que permanece como uma lira, sob o toque misterioso do Espírito Santo,que nela produz harmonias divinas. Ela sabe que o sofrimento é uma corda que produz sons mais belos ainda e por isso gosta de vê-la no seu instrumento,para comover,mais ternamente, o coração de seu Deus.

Um louvor de glória: é uma alma que contempla a Deus na fé e na simplicidade; é um reflexo do Ser de Deus. É como um abismo sem fundo, no qual ele pode derramar-se, expandir-se. É também como um cristal, através do qual Deus pode irradiar e contemplar todas as suas perfeições e o seu próprio resplendor. Uma alma que permite, deste modo ao Ser divino satisfazer nela sua necessidade de comunicar tudo quanto ele é e tudo quanto possui, é realmente o louvor de glória de todos os seus dons.

Enfim, um louvor de glória é um ser em contínua ação de graças. Cada um de seus atos e movimentos, cada um de seus pensamentos e de suas aspirações, fixam-na mais profundamente no amor e são como que um eco do “Sanctus” eterno.

44. No céu da glória, os bem-aventurados não cessam de repetir “dia e noite: ‘Santo, Santo, Santo,o Senhor todo-poderoso…’, prostrando-se,adoram aquele que vive pelos séculos dos séculos”. No céu de sua alma o louvor de glória começa, desde já,o ofício que há de exercer na eternidade. Seu cântico nunca se interrompe,porque ele age sempre sob o impulso do Espírito Santo que tudo opera nele.

E, ainda que ele nem sempre tenha consciência disso, pois a fraqueza da natureza não lhe permite fixar-se em Deus sem distrações, ele canta e adora constantemente, e transforma-se, por assim dizer, em louvor, em amor apaixonado pela glória de seu Deus. No céu de nossa alma sejamos louvores de glória da Santíssima Trindade, louvores de amor de nossa Mãe Imaculada. Chegará o dia em que o véu cairá e seremos introduzidos nas átrios eternos e lá cantaremos no seio do Amor infinito, e Deus nos dará o “nome novo, prometido ao vencedor”. Qual será este nome?

Laudem gloriae